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"Sapatão- transmasculine’’ e o  perigo das Identidades-Relação nas lutas políticas por dignidade

  • Foto do escritor: zeca caru de paula
    zeca caru de paula
  • há 2 horas
  • 8 min de leitura
“Descrição não é libertação” Katherine Mckittrick

A proposição ‘’Sapatão-Transmaculine’’ e a violência da imagem como descrição e justificativa primeira para hierarquização das diferenças.


Formigão é uma referência da qual é impossível escapar quando estamos interessedes nos assuntos das sapatonices, das lesbianidades e das transmasculinidades, e é inescapável porque é desde as suas corajosas fabulações que um deslocamento, que já vinha se fazendo urgente, pôde emergir com alguma dignidade, não é atoa que Ju Motter e Mugra recusam não se envolver com as palavras de Formigão, ambas também referências inescapáveis neste assunto, porque jamais uma pessoa que pensa, pensa sozinha, tudo que emerge em pensamento na singularidade está em Relação com o que está além da própria experiência. Todo pensamento é Relacional, nada é inédito completamente, não se produz pensamento sozinhe, ainda que muitas pessoas insistam em não dar notícias de todo rizoma envolvido em uma formulação e fabulação.


Porque a notícia de uma relação-identidade, como propõe Glissant, é tão incômoda e experimentada como ameaça? Katherine Mckittrick em seu livro Querida Ciência e outras histórias, em uma conversa precisa e preciosa com o trabalho de Silvia Winter e as contribuições dos estudos negros para a fabulação de práticas de insurreição, repete a afimração ‘’Descrição não é libertação’’, nos convocando a ficar com um probelma incômodo no modo como movimentos políticos e modos de pensamento se dedicam expressivamente a descrição dos fênomenos e encerram nesse gesto as implicações que os problemas de vida e morte diante a Violência total, como propõe Denise Ferreira da Silva, nos implicam.


Descrever a diferença entre lésbicas - sapatões - e transmaculinidades não é suficiente para resolver um problema real, material, POLÍTICO,  subjetivo e amplamente vivido e que JÁ COMPÕE O DISCURSO dessas identidades-ralação. E descrever as diferenças tão pouco justifica que elas são suficientes para marcar uma distância tão abrupta que uma aproximação venha a ser sinônimo de ameaça. Aliás, é justamente pelas suas poucas distâncias, e insuficientes diferenças, que a ameaça aparece, porque o esforço moderno e colonialista não suporta fenômenos relacionais e que desarticulam as políticas de diferenciação, hierarquização e construção de identidades fechadas ao outro que não compartilha, essencialmente, do mesmo mito fundador.


Um exemplo expressivo deste assunto é como a sapatonice se torna um modo de dizer de uma experiência em trânsito, de deslocamento de um ideal de imagem de mulher, e como compõe ativamente as experiências ancestrais de incontáveis modos de se dizer transmasculine. Aqui, não me atenho exclusivamente a como cada pessoa anuncia sua identidade, mas a como é preciso considerar as dimensões de tempo histórico para ficar com o que corpos continuam a fabular em inúmeros modos de nomear as experiências. Uma coisa, que é sem dúvidas importante, é o modo como nomeamos nossos trajetos, outra coisa é como o outro se relaciona com como esses trajetos aparecem para o seu corpo, e outra ainda muito diferente, é o modo como ambos decidem por tratar esse mal entendido fundamental, essa diferença inescapável, afinal, nenhum nome ou identidade é capaz de dizer de uma verdade absoluta dela mesma, mesmo a do homem cis hétero branco - e percebam que eles se esforçam mais do que ninguém para garantir essa homogeinização de sua identidade-raiz, fechada para a Relação, a ponto de investirem em mutilações de suas próprias pulsões e vitalidades. As identidades que não se abrem para a Relação são identidades fadadas à extinção, e por isso precisam a todo custo se manterem em campanhas de aniquilação de identidades-relação que coloquem seus territórios fechados e bélicos sob tremores incontornáveis.


Se, assim como afirma McKittrick Descrição não é Libertação, de que nos serve exatamente a primazia da imagem como balizador primeiro para tratar dos problemas que um modo de pensa-fazer identidade, que  está completamente capturado pelo modo moderno de representação, nos insere? Sim, uma lésbica não experimenta o mundo como uma pessoa transmasculina, mas nem mesmo as lésbicas experimentam o mundo da mesma maneira, e sei que vocês podem dizer ‘’um é mulher e o outro é homem, essa diferença ja basta para não retomar nenhum tipo de aproximação, que não a lésbica como um possível passado de uma transmasculinidade que, supostamente, ainda não tinha ecnontrado o jeito ‘’certo’’ de nomear a sua experiência”, mas para tratarmos nestes termos, é necessário minimamente acreditar que a experiência vivida como lésbica ou como sapatão antes da transição foi uma expriência falsa, um jogo de falseamento, uma prótese descartável e por isso não reconhecível em legitimidade e produtora de subjetividade ‘’o suficente’’ para ser tratada como um passado ancestral. Para quem se atém aos funcionamentos do colonialismo, sabe que esse é um modo de insistir na despossessão como destino aos corpos negros e indígenas, insistindo que só é possível um agora puro e sobre o qual só é possível fabular um retorno linear a uma terra romantizada, e que tudo o que se viveu pelo caminho é o que precisa ser esquecido, porque se for elaborado, vivido como acontecimento que segue a produzir efeitos em escalas inimagináveis, a issurreição não será contornável. Eles precisam que nos esqueçamos, para que sejamos sempre o que fazem de nós. Sim, sapatão foi um modo jocoso de tratar as experiências de mulheres que se relacionavam com mulheres, um modo de dizer que elas não seriam mulheres, porque mulher é aquela que se relaciona estritamente com homens, contudo parece curioso que não nos atentemos a escolha da palavra para marcar de maneira jocosa a diferença: Sapato grande. Percebam, eles nomeiam aquilo que avaliam como fuga da norma suposta de ideal de mulher com um elemento que lembre a eles mesmos e sua gramática, na qual até  mesmo o tamanho dos pés é a medida de dizer de um vivo, sem dúvidas, o movimento de sapatões efetuou uma torção preciosa ao assumir seus inesquecíveis, impossíveis, marcantes e firmes pés grandes, monstruosamente alargando o furo que mulheridades podem operar na cena colonial de gênero, contudo esse furo não é condição a priori das mulheres, mas uma posição, um devir, um gesto que precisa ser feito a todo instante, uma posição diante a cena que se interessa ATIVAMENTE por desarticular qualquer pretensa tentativa de encerrar as mulheridades em uma mulher ideal, fechada, para pactuar ativamente com a cena familista e de subjugação dos corpos com útero, lembrando que para a gramática das cenas coloniais de gênero A mulher ideal tem útero, vulva, é branca, miúda. Bom, isso tudo não é novidade para quem minimamente se envolve com os problemas das gramáticas coloniais de gênero e da diferença sexual. 


Se desarticular a cena colonial do gênero requer uma posição ativa em direção a produzir furos até então aparentemente impossíveis, os trânsitos que corpos marcados pelo “é menina” fazem para fora da cena familista estão entre as nossas melhores hipóteses de insurreição e de operar uma desorganização da cena, um fim dela, rumo a um desconhecido que é feito no instante em que conjuramos furos, fugas e outros modos de articular e dizer do vivo, então também, de nomear.


Todos os corpos sobre os quais se espera “a mulher submissa” que conjuram outros destinos para suas vidas, se envolvem com as exigências de identidades-relação, e toda tentativa de produzir identidades-únicas-fechadas com esses gestos pulsionais é a atualização de um modo de viver, interessado nas monoculturas, como propõe Geni nunes, e que só possuem como destino a própria extinção. Toda identidade que se fecha para os trânsitos próprios da constituição de uma identidade está em pacto agudo com a hierarquização e aniquilação da radical diferença. Vale ressaltar que aqui não me refiro expressiva e unicamente a gestos individuais, digo isso para tentar prevenir a retaliação diante a identificação que pode acometer alguns, e envolver a leitura até aqui de angústia e necessidade de interditar um dizer que o perturba.


Perturbação essa que parece também acometer aqueles e aquelas que se deparam com um tipo de mal estar ao se verem diante de proposições como Sapatão-Transmasculine, e que projetam no outro o que não podem suportar na notícia do furo que jamais desapareceu, ainda que façam todos os esforços para que ele não volte a perturbar com a sua presença-escape. Nestes termos, ouso inclusive propor que Sapatão-trasmasculine é um modo de dizer de quem faz pacto inegociável com o vivo, justamente porque faz a afirmação de uma identidade desde o impossível de dizê-la sem o custo incontornável da retaliação, seja entre as cisgeneridades, as transgeneridades, as lésbicas e os homens trans. Sapatão-transmasculine não perverte a mulher ou o homem trans, mas se distância de ambos na medida em que radicaliza a proximidade com o que tem de mais radical na história de ambos: a recusa da subalternização e o alargamento do que pode o corpo e algumas periferias do gênero. 


Sapatões-transmasculinos ousam contar de um modo de fazer caminho, e habitar o desconhecido destino daqueles corpos que não negociam seus pactos com o vivo, no qual a vida sempre sobressai mesmo sob as condições mais áridas, sem tratar essa exigência do vivo como sem custo, todo pacto com o vivo requer ginga, queda, feytyçarya, língua bifurcada, encruzilhada, implicação, decisão, e éticas em pacto com uma Poética da Relação, assim como propõe Glissant: A Relação é totalidade aberta.


Sapatão-transmasculine convoca um modo de dizer de uma experiência que desloca os imaginários, e que não nasce no discurso, mas na experiência própria de corpos que recusam não apenas a gramática da subalternização que atrela os corpos negros, indígenas, loucos, pessoas com deficiência, mulheres e pessoas trans a uma experiêcia unicamente de sofrimento, como também recusa que a melhor resposta a isso seja acessar a vida digna fabulada pelos mesmos interessados na sua aniquilação. As transmasculinidades-sapatônicas são perigosas para os modos convencionais de lutas políticas por dignidade porque não insistem que o melhor destino é a dignidade sonhada pelo colonialismo, e financiada na modernidade e pelo capitalismo, na qual a vida se dignifica não com acesso a alimentação, moradia, saúde, descanso, terra, vida interespécies, mas no acúmulo de capital (seja simbólico, financeiro ou mesmo narcísico). Desacreditar que somos o que fizeram de nós é fundamental para conceber uma vida no que se manifesta impossível porque o que fizeram de nós não pode recorrer a fabulação criadora, a não ser que banque o custo do indeterminado e toda a vida que o acompanha, mas me é impossível não pergumentar: toda decisão tem seu custo, alguns mais exigentes que outros, mas porque apostar na dignidade sonhada por eles se este é o seu plano de invasão?


Sapatão-transmasculine são conjuradores de sonhos até então impossíveis, uma identidade-relação, um espaço aberto que escapa ao sonho mortífero da identidade-fechada para conjurar um outro destinos para as lutas políticas por dignidade, nas quais o espaço aberto não marca “qualquer coisa” ou uma ausência de precisão e critério, mas seu critério já não se manifesta na materialidade da imagem de onde partimos para agir no mundo, mas na materialidade exigida pelo vivo ao ter de decidir a cada vez diante uma feitura contínua para permanecer. Uma dignidade na composição, e não na assimilação ou um tipo de mistura interessada no apagamento. Uma dignidade envolvida com a exigência de políticas públicas que não negociem desde a hierarquização de todas as vidas conhecidas, e até mesmo as que ainda desconhecemos. Sapatão-transmaculine é uma posição, um furo na cena, uma revolta na linguagem, um modo de estar no encontro com o outro, nem homem nem mulher ainda que se preservem as memórias que tornam a passagem uma passagem. 


Por fim, ou por começo porque este texto é também uma formulação desejante, descrever a experiência sapatão-transmasculine é uma tarefa, mas não é ela nossa total e única prática de insurreição, a explicação se encontra na abertura para o desconhecido e não na descrição. A compreensão não é sinônimo de legitimidade. Inteligibilidade não é sinônimo de legitimidade. Toda diferença é um convite. A Paranóia uma insistente tentativa de captura do incontornável. O absoluto irresoluto um destino de extinção. O colonialismo e suas linguagens nos ensinaram a sonhar, mas nada está perdido porque o pacto do sonho é com a medida incontornável do vivo e nessas condições, no sonho mora o saber da fuga, especialmente os sonhos que não se sonha sozinho. 

 
 
 

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