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Independentes? — Refletindo sobre a atualização do colonialismo e estratégias de resistência, com Maria Rita Casagrande

Foto do escritor: Maria Rita Casagrande
Maria Rita Casagrande
7 de set.
6 min de leitura

Independência proclamada por um representante do império que nos colonizou. Indígenas e negros em trabalho escravo e sem direito à terra. Índices elevados de concentração de renda e analfabetismo. Foi nesse cenário que o Brasil foi forjado como independente por D. Pedro I.


No presente, as relações de poder em torno da tecnologia deixaram ainda mais evidente a farsa da independência que nos habituamos a comemorar. Para refletir sobre o assunto e apontar estratégias de resistência, a Brava conversou com Maria Ria Casagrande, especialista em tecnologia, estratégia digital e educação. 


Brava — Há algum tempo, os movimentos negro e indígena têm denunciado a falácia da independência, num país que se afirmou liberto diante da permanência da escravidão. Hoje, nós temos visto tentativas de interferências diretas do Norte global em nosso território, seja pela via da política, seja pela via da tecnologia. Estamos diante de um novo paradigma colonial ou de uma atualização dele?


Particularmente, eu não acho que seja uma surpresa. Ouvir denúncias e questionamentos de indígenas e da população negra vem de quem realmente pensa e sente a colonização. E não acho que seja um novo paradigma, é uma atualização. A lógica é exatamente a mesma: parte de um centro que acumula, decide e lucra, e uma periferia que acaba fornecendo o corpo, a terra e, agora, o dado, além do trabalho eternamente precarizado.


A independência que os países do Sul Global acabam celebrando nos atos formais não rompe a estrutura. Nunca rompeu a estrutura colonial. Muda ali a carinha da coisa, o uniforme de quem administra essa dependência, mas a lógica é a mesma. O movimento negro e indígena sempre soube disso, porque parte da gente esse olhar. A gente continua colhendo o custo real dessa suposta liberdade: tendo nossa terra roubada, nosso corpo explorado e nossos saberes apagados. Muda o material dessa extração, mas a lógica se mantém. Se antes era ouro e açúcar, hoje a gente vai ter o lítio da bateria do celular, somado à mão de obra precarizada, escravizada, e ao dado.


Cada rota, cada clique acaba virando uma matéria-prima. Esse cruzamento de dados permite que a gente seja extremamente manipulado numa lógica capitalista, em que a gente inclusive perde a percepção do que está fazendo ali. E o mais cínico é que essa nova extração está sendo caracterizada como progresso, como conectividade, vendida como liberdade de escolha e inovação. É exatamente como a colonização antiga se vendia como civilização, com a desculpa de que a gente estava "se melhorando".


Tem também a questão da geografia nisso. Territórios inteiros são organizados para produzir a infraestrutura de ponta da economia digital. O microchip não vem do nada. Satélites, cabos... existe uma infraestrutura física por trás da tal da tecnologia que a gente consome e pela qual somos consumidos. Enquanto o capital que controla essa produção e o lucro que ela gera seguem concentrados em duas ou três potências, esses nossos territórios são amplamente explorados. É aqui, no Sul Global, que ocorre a partilha do mundo. Só que o mapa não tem mais fronteira territorial: são os servidores, as patentes, os cabos submarinos que não nos pertencem. Para onde esse dado vai, onde estão esses data centers e a quem pertencem, essa é a questão. Eu acredito que é uma atualização. O colonialismo nunca morreu, ele se sofisticou, é quase invisível, mas a gente continua carregando as correntes dele no nosso pulso e na telinha do celular.


Brava — Quais são as estratégias de resistência e enfrentamento que você destacaria nesse cenário de colonialismo digital? Como podemos apoiá-las?


Como estratégia, temos algumas. Acho que passa primeiro pela recusa da ideia de que a tecnologia é neutra, natural ou inevitável. A gente precisa recusar essa argumentação. A tecnologia foi desenhada por pessoas, a serviço de um interesse de acumulação privada. Ela não foi pensada por coletivos dizendo "vamos salvar o mundo" ou "vamos resolver problemas complexos". As tecnologias mudam, mas são feitas por pessoas.


Não é só sobre usar ou não usar determinadas redes sociais. Quando a gente fala de soberania digital, é muito sobre infraestrutura: quem lucra com os dados que a gente produz e quem decide quais são os rumos das ferramentas. Então, eu proponho uma grande luta pela soberania tecnológica popular. Precisamos exigir que investimentos sejam feitos, tanto pelo Estado quanto pelo movimento de sociedade organizada, em infraestrutura digital pública. Ter servidor próprio, usar software livre e acabar com a dependência de nuvem é uma corda a menos no nosso pescoço, é um controle a mais que a gente passa a ter.


A gente entende hoje o dado como mercadoria, como propriedade particular, mas não deveria ser possível que ele gerasse lucro para outros. Temos que pressionar por uma legislação que trate o dado coletivo como patrimônio público, que precisa ser protegido e regulado. Não é petróleo para ser extraído livremente por quem chega primeiro com o aplicativo mais bonito. Hoje, as empresas decidem o que a gente pode ver daquilo que foi construído; controlam o que a gente pensa e o que a gente compra, fazendo previsões baseadas no nosso próprio comportamento para lucrar mais. Estamos sendo facilmente manipulados. Exigir uma auditoria ou uma explicação do que está acontecendo por trás dos algoritmos é muito importante, e isso é algo que a gente precisa construir com organização política. Jamais viria de boa vontade corporativa.


Acho que alianças no Sul Global são fundamentais. Nenhum país isolado vai enfrentar sozinho a concentração de poder que está em duas ou três potências. A saída passa por cooperação Sul-Sul em tecnologia, ciência e produção. A colonização é uma questão tão profunda que a gente não briga nem para falar nossa própria língua; a gente aceita o inglês para tudo numa boa e acha natural. Precisamos olhar um pouco mais para as soluções que já existem aqui e produzir essas alianças.


Mas o ponto principal, que mais me interessa, é uma apropriação popular e hacker da técnica. Descolonizar não vai ser rejeitar as tecnologias, a gente precisa tomar essas tecnologias para nós. Formar programadores populares, criar coletivos de tecnologia comunitária, buscar uma mídia alternativa que não dependa de algoritmo e encontrar redes que não estão brigando pela nossa política de atenção. Precisamos de uma educação tecnológica não só para o código, mas para o entendimento de que a gente navega em apenas 2% da internet, enquanto 98% do conhecimento espalhado pela rede a gente sequer acessa, porque estamos concentrados em poucos espaços e trancados em bolhas. Hoje a gente está numa "internet morta", onde máquinas se comunicam com máquinas e nós apenas consumimos isso como produtores de matéria-prima.


Precisamos retomar a internet. Ocupar, fazer construções que não sejam criadas por IA generativa, mas produzir nossos próprios textos e continuar registrando nossa memória. Hoje tudo é feito em rede social e o que está lá pertence às Big Techs, não existe arquivo. Daqui a pouco vai ficar impossível fazer o registro histórico, porque a gente trabalha de graça no Instagram para manter o histórico da plataforma, mas não tem acesso a ele de modo organizado.


Retomar as tecnologias e se apropriar do conhecimento é a única maneira de brigar por essa soberania. É colocar isso na prática e sustentar politicamente e financeiramente. Embora pareça difícil individualmente fazer algum movimento, se politizar e se organizar são atitudes individuais que geram frutos. A colheita é coletiva, mas a gente precisa se informar e rejeitar os absurdos como indivíduos. A gente aceitou tudo com muita tranquilidade porque fomos perdendo o senso crítico. A condição em que a gente está hoje não é inevitável. Estar ciente disso é o que vai permitir que a gente opere mudanças. Descolonizar o digital é parar de replicar o histórico de exploração sobre a nossa própria vida.

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Maria Rita Casagrande é especialista em tecnologia, estratégia digital e educação, com mais de 25 anos de experiência em projetos de inovação para marcas globais como Google, Natura e L’Oréal. Atua como desenvolvedora web, gerente de projetos de TI e facilitadora em formações voltadas para tecnologia crítica, diversidade e inclusão. Mantém o Hacker Space BlackLabs. Foi cofundadora do coletivo Blogueiras Negras e já colaborou com iniciativas como {reprograma}, PretaLab e MariaLab. Em suas aulas e palestras, articula tecnologia, feminismo e movimento negro, propondo reflexões sobre colonialismo digital, soberania tecnológica e práticas de resistência cotidiana.

 
 
 

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