A imaginação radical e o legado abolicionista de bell hooks

Cresci em uma família que me ofereceu muito amor. Muitas vezes, esse amor coexistia com a violência, o conflito e o abuso. Durante muito tempo, ainda com auxílio da igreja, aprendi que o amor suportava tudo e que era possível ferir e matar alguém em seu nome. “Faço isso porque te amo”, diziam. Mas, de alguma maneira, eu sabia que aquele ideal de amor, sustentado por uma lógica coercitiva, não podia existir.
Lendo bell hooks, encontrei uma compreensão do amor como uma combinação de “cuidado, afeto, reconhecimento, respeito, compromisso e confiança, assim como uma comunicação honesta e aberta” (2000, p. 5). Embora eu tenha ressalvas à tentativa de sistematizar um afeto tão complexo, sua análise me ajudou a encontrar palavras para algo que eu ainda não sabia como dizer. Como acreditar em um amor que me feria? Mesmo sem dar conta de tudo o que o amor pode ser, sua escrita me ajudou a reconhecer o que eu desejava viver e o que já não queria aceitar em nome dele.
Ao revisitar essas memórias, lembro-me de recorrer à imaginação para criar mundos onde poderíamos viver outras formas de amor. Para isso, porém, seria necessário abolir determinadas formas de relação e repensar a nós mesmas e ao mundo. O amor que eu desejava exigia transformar as condições que faziam da violência uma expressão aceitável de afeto. Aquilo que aprendi com hooks, ao imaginar essas possibilidades, tem um nome: imaginação radical. Ao nomeá-lo assim, reivindico a potência imaginativa que habita sua obra e a partir da qual proponho ler seu legado abolicionista.
Desde Ain’t I a Woman (1981), hooks dedica-se a compreender como os sistemas de opressão se articulam, uma preocupação que atravessa sua obra e se condensa na expressão “patriarcado capitalista imperialista supremacista branco”. Compreender a dominação exige reconhecer as relações entre estruturas que se constituem e se sustentam mutuamente, sem pressupor que uma delas explique, sozinha, todas as outras (hooks; Yancy, 2015). Essa perspectiva acompanha suas reflexões sobre a educação e a sala de aula, suas análises da cultura visual e suas contribuições aos estudos das masculinidades e à teoria feminista.
A força de sua obra pode ser reconhecida tanto nas lutas por justiça social quanto na intimidade das vidas que ela transformou: nas pessoas que encontraram em seus livros uma linguagem para nomear a violência, interrogar o que haviam aprendido e desejar outras formas de existência. Daqui, do Brasil, lemos hooks como interlocutora fundamental para pensar a educação, em diálogo com autoras e autores como Nilma Lino Gomes e Paulo Freire. Lemos sua obra a partir de nossas experiências de luta, das contradições de nossas instituições e dos saberes produzidos em nossas comunidades. Nesse encontro, suas palavras adquirem outros sentidos e participam de perguntas que também são nossas.
Uma das ideias de hooks que considero mais importantes, presente em Writing Beyond Race (2013), é a centralidade da ética amorosa para os movimentos por justiça social. Sua reflexão sobre o amor nos leva a examinar aquilo que fazemos, o que permitimos e as formas de poder que reproduzimos, inclusive nas relações mais próximas. É nesse sentido que encontro uma contribuição fundamental de sua obra aos movimentos políticos, especialmente aos movimentos negros: a compreensão de que a mutualidade (a Relação) é revolucionária. Compartilhar o cuidado, a escuta e a responsabilidade transforma nossa vida em comum. A liberdade que reivindicamos precisa encontrar lugar também na maneira como nos relacionamos.
A obra de hooks nos convida à prática, à ação transformadora. Por isso, leio nela um trabalho de imaginação radical, que é também o trabalho do amor: criar outro possível e sustentar as condições de sua existência. Imaginar envolve interrogar os limites que aprendemos a aceitar e experimentar relações que ainda não sabemos inteiramente como viver. Encontro em sua escrita o desejo de pôr fim às relações de dominação que organizam o mundo ao nosso redor. A partir dela, penso na abertura de espaço para mundos negros e indígenas, para formas de conhecimento e de vida continuamente ameaçadas pelo projeto colonial. Esses mundos já existem. Reconhecer sua presença exige defender suas condições de continuidade e aprender com aquilo que tornam possível.
Em uma conversa com o filósofo e amigo Cornel West, realizada em 2016, hooks lamenta: “Ao reler Breaking Bread [publicado pela primeira vez em 1991], fiquei perturbada ao perceber que a maioria dos problemas que identificamos havia se agravado” (hooks; West, 2017, p. lv). West acrescenta: “Tudo está muito pior. Muito pior. Na verdade, muito pior do que poderíamos ter concebido naquela época [1991]” (hooks; West, 2017, p. lv). Vinte e cinco anos depois da primeira publicação do livro, ambos se confrontavam com a persistência e o agravamento daquilo que haviam combatido. Sua insatisfação nos lembra que a passagem do tempo, por si só, não desfaz as estruturas de dominação: elas também se reorganizam, encontram novas formas de se legitimar e aprofundam seus efeitos.
É na recusa em aceitar essa continuidade como destino que situo uma dimensão abolicionista do pensamento de hooks. Há relações e estruturas cuja permanência é incompatível com a liberdade que desejamos construir. Reformá-las pode ser insuficiente quando os mecanismos que produzem a violência permanecem intactos. A transformação precisa alcançar as condições que tornam essa violência possível, legítima e cotidiana. Essa exigência também me permite aproximar sua obra de uma sensibilidade anárquica, de uma disposição para interrogar hierarquias naturalizadas e recusar a dominação como princípio organizador da vida. Leio essa disposição em sua insistência em transformar tanto as instituições quanto as relações nas quais aprendemos a exercer e a suportar o poder.
Em diferentes momentos, hooks dirigiu suas críticas às lideranças negras, aos limites dos movimentos feministas, à cooptação das lutas por projetos de ascensão individual e às políticas culturais estadunidenses (hooks, 1984; 1990; 1992; 2001). Sua crítica alcança também os espaços que se apresentam como emancipatórios. Pertencer a um movimento não nos impede de reproduzir aquilo que combatemos, assim como conquistar posições de poder não assegura que suas formas de exercício sejam transformadas. Sua escrita nos exige disposição para rever nossas certezas e enfrentar as contradições das práticas às quais estamos ligadas.
Ao nos convocar à ação, hooks fez mais do que escrever livros. Sua obra participou da formação de uma multidão de leitoras, educadoras, artistas e militantes que encontraram em suas palavras ferramentas para transformar o mundo. Uma multidão da qual faço parte e que não se encerra em uma identidade ou em um território. Seus livros chegam a experiências distintas, entram em conflito com elas, oferecem companhia e fazem nascer perguntas. Minha própria relação com sua escrita passa por esse movimento: posso discordar de uma formulação e, ainda assim, encontrar nela palavras de que preciso. É também por essa capacidade de produzir encontros que a imaginação radical se torna tão poderosa.
O projeto colonial é um projeto de morte. Romper com suas estruturas exige imaginar de outro modo e recuperar nossa potência imaginativa insubmissa, capaz de recusar a continuidade da lógica escravista na organização da vida. Em diálogo com hooks (1992), compreendo a imaginação como o ato de criar o possível, reinventar a realidade e fundar novos mundos. Imaginar dá forma ao que ainda não encontrou condições de existir e desloca aquilo que nos foi apresentado como estável.
Vivemos em um mundo que frequentemente se apresenta como a única realidade possível. Seus limites nos são ensinados como se fossem os limites da própria vida. Mas, como nos lembra Walidah Imarisha (2015), a liberdade das pessoas negras escravizadas também foi tratada como impossível. Imaginar a liberdade sob a escravização significava desejar uma realidade que a ordem vigente trabalhava para impedir. Nesse sentido, nossa existência participa da realização dos sonhos de quem veio antes de nós. Somos parte de um futuro imaginado por pessoas que se recusaram a aceitar como destino o mundo que lhes foi imposto. Que possibilidades de vida somos capazes de imaginar para quem ainda não chegou? Que formas de Relação precisamos abandonar, e quais precisamos aprender a sustentar?
A imaginação radical é também um ato de recusa. Uma rebelião. Ela não se curva ao que é classificado como “irrealista”, porque os critérios que definem o possível também estão em disputa. Ao reimaginar o presente, participamos da invenção do futuro. Quando parece não haver saída, a imaginação nos convoca a criar rotas de fuga, mapear a catástrofe e trazer ao mundo aquilo que antes parecia impossível. Essas rotas ganham corpo em práticas de cuidado, em espaços de estudo, em alianças, na redistribuição de recursos e na capacidade de sustentar umas às outras. O trabalho da imaginação continua nas condições materiais que construímos para que a vida possa acontecer de outra maneira.
Por meio de sua imaginação radical, hooks continua ajudando pessoas a contar suas próprias histórias e a criar mundos. Essa é a força das ferramentas que nos deixou. Entre tantos ensinamentos, sua obra me mostrou que, mesmo na desolação, podemos construir possibilidades em comunidade. Comunidades nas quais haverá diferenças e conflitos, e nas quais precisaremos aprender a permanecer em Relação sem fazer da violência uma condição do pertencimento.
O legado de hooks permanece nas perguntas que sua obra nos permite fazer e nas possibilidades de vida que nos encoraja a construir. Sua imaginação radical nos convida a reconhecer o que precisa acabar para que outras formas de amar e viver possam existir, assim como aquilo que precisamos criar, cuidar e aprender em comum. Esse trabalho continua entre nós, nos encontros e nas práticas que dão corpo à liberdade que imaginamos.
Referências
hooks, bell. Ain’t I a Woman: Black Women and Feminism. Boston: South End Press, 1981.
hooks, bell. Feminist Theory: From Margin to Center. Boston: South End Press, 1984.
hooks, bell. Yearning: Race, Gender, and Cultural Politics. Boston: South End Press, 1990.
hooks, bell. Black Looks: Race and Representation. Boston: South End Press, 1992.
hooks, bell. All About Love: New Visions. New York: William Morrow, 2000.
hooks, bell. Salvation: Black People and Love. New York: William Morrow, 2001.
hooks, bell. Writing Beyond Race: Living Theory and Practice. New York; London: Routledge, 2013.
hooks, bell; WEST, Cornel. Breaking Bread: Insurgent Black Intellectual Life. New York; London: Routledge, 2017.
hooks, bell; YANCY, George. bell hooks: Buddhism, the Beats, and Loving Blackness. The New York Times, 10 dez. 2015. Acesso em: 1 jan. 2022.
IMARISHA, Walidah. Rewriting the Future: Using Science Fiction to Re-Envision Justice. 11 fev. 2015. Acesso em: 1 jan. 2022.
PECK, M. Scott. The Road Less Traveled: A New Psychology of Love, Traditional Values, and Spiritual Growth. New York: Simon and Schuster, 1978.

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