A sobrevida do progressismo e a democracia autofágica

Os primeiros resultados das eleições de 2026 mostram um claro avanço da extrema-direita no poder legislativo, conquistando maioria.[1] Sem entrar nos méritos da possibilidade de Lula ganhar ou não a presidência no segundo turno, o cenário que nos será dado em 2027 é pior - e não apenas do ponto de vista institucional. Seja como for, a extrema-direita mais uma vez dá mostras da sua capacidade de conduzir uma “revolta autoritária”, que se alimenta da dinâmica de crise de nossa forma social e do esgotamento do progressismo em escala global.
Nesse sentido, esses resultados aterrorizantes não são, contudo, uma surpresa. Eles confirmam uma tendência cuja formação, no Brasil, requer refletirmos um pouco sobre o que se passou nas últimas décadas e como chegamos aqui.
O esgotamento do progressismo
É conhecido que os anos de 2000 à 2015, na América Latina, foram marcados por um ciclo de governos progressistas, em ressonância com governos neoliberais “inclusivos” existentes no Norte Global, como nos Estados Unidos de Barack Obama. A partir de 2008, esse ciclo começou a esgotar, dando lugar, cada vez mais, aos governos de extrema-direita. No Brasil, um marco desse esgotamento foi as revoltas de junho de 2013.[2]
Mas o que colapsou exatamente? Não “projetos” ou “programas” de esquerda, porque o que não foi implementado não tem como fracassar. O ciclo progressista, e em particular os governos de Lula e Dilma, não se definiu por uma realização programática. O conteúdo daquilo que ruiu foi uma estratégia de governo construída a partir de coalizões ou “pactos sociais”, que não tinham como horizonte nada além da administração, na imediatidade do presente, de uma forma social que entrou em uma crise estrutural (desde os anos 80, ao menos). Em outras palavras, trata-se de um ciclo progressista de administração de crise, responsável por articular crescimento econômico, proporcionado pelo boom das commodities, com inclusão social via mercado e programas sociais de transferência de renda.
Paradoxalmente, o próprio ciclo progressista da América Latina se configurou como expressão da crise e esgotamento estrutural da energia histórica da esquerda progressista. Em termos concretos, ela foi reduzida a uma co-administradora de emergência do processo de decomposição social e de suas “expectativas decrescentes”.
Nesse sentido, a crise em questão não é nem meramente uma crise econômica, nem meramente política. Mas uma crise mais fundamental da forma social existente, que se depara também os limites ecológicos de sua reprodução. A crise estrutural do Capital Global, resultante da eliminação progressiva da força de trabalho necessária para sua acumulação é, simultaneamente, uma crise do Estado moderno como forma de regulação das relações sociais baseadas na acumulação monetária e na concorrência entre sujeitos proprietários, estruturalmente cis-masculinos e brancos. Quando o nexo social entre dinheiro e mercadoria não pode mais se sustentar pela forma democrática do contrato, a violência, sobretudo armada, se generaliza como mecanismo de administração social. Em outras palavras, trata-se de uma crise do mundo como nos é dado a conhecer, que se dispersa em complexos milicianos-emrpesariais-religiosos. É portanto tal crise que se processa, dentre outras maneiras, como uma crise das democracias pós-fascistas como forma de governo, incapaz de manter a coesão e o consenso social entre interesses diversos e estruturalmente antagônicos.
Contudo, a crise da democracia não começou com as eleições de Trump em 2016 ou de Bolsonaro em 2018. Embora eles representem, evidentemente, uma nova etapa desse processo de crise, os governos progressistas também desempenharam seu papel. Progressismo e neofascismo não podem, portanto, serem meramente opostos como dois polos externos e independentes um em relação ao outro. As condições de possibilidade da emergência dos governos de extrema-direita são as mesmas compartilhadas pelo ciclo progressista anterior. Esse último foi marcado também pelo recurso cada vez mais crescente de dispositivos jurídicos de exceção, responsáveis por garantir processos de expropriação de terra e destruição ecológica, requeridos pelo neoextrativismo e o agronegócio voltados para o mercado imediatamente globalizado. Mas também para reprimir e criminalizar movimentos sociais e de rua, em especial os protestos que sucederam após a crise de 2008. A militarização social e o encarceramento em massa também avançaram, sobretudo sobre populações não-brancas e pobres. Como resultado, a política de segurança, baseada na gramática da guerra que opõe “cidadãos x bandido”, ampliou o poder das polícias militares e a base política e econômica de expansão das milícias. Esse processo foi ainda acompanhado das políticas de austeridade, justificadas como necessárias para o pagamento das dívidas estatais e responsáveis por precarizar ainda mais as condições materiais e aprofundar a desigualdade social. Por fim, o impulso da racionalidade empresarial por meio do Estado, em especial via privatizações, terceirizações dos serviços sociais e políticas de apoio ao empreendedorismo, é apenas a conclusão daquilo que a democracia sempre foi e nunca deixou de ser: uma democracia do mercado, que pressupõe a dinâmica da concorrência, com sua produção de vencedores, cada vez mais minoritários, e perdedores, cada vez maiores. Nesse quadro, as políticas de inclusão social focalizadas apenas timidamente compensaram esse processos social destrutivo de fundo.
A dinâmica neofascista, portanto, não é fenômeno exterior às democracias. Trata-se de um processo “interno”, que é efetivado a partir das suas próprias bases e lógica interna. Não apenas porque os políticos da extrema-direita são eleitos democraticamente, ao mesmo tempo que, ao serem eleitos, ganham condições ainda maiores de se projetarem sobre o campo social, acelerando a crise da política e a expansão de formações autoritárias e criminosas. Mas porque o neofascismo é um fenômeno de crise das democracias pós-fascistas, resultando da sua própria lógica interna de funcionamento enquanto forma de governo do mercado. Como observou Kurz, em A Democracia Devora seus Filhos (1993):
““[O] totalitarismo monetário da democracia de mercado devora os seus próprios filhos. A lógica interna de dominação do sistema democrático de mercado expulsa [os indivíduos] repressivamente e, em seguida, produz como reação(...) um eco assassino de si mesma. A democracia e o radicalismo de direita se correspondem como gêmeos siameses, conectados internamente através do sistema circulatório do processo de valorização.”
A sobrevida do progressismo
Após 2018, a América Latina voltou a presenciar novas vitórias de governos progressistas. na época a falar de uma “nova onda”: André Manuel, no México; Pedro Castiillo, no Peru; Alberto Fernández, na Argentina; Gustavo Petro, na Colômbia; Gabriel Boric, no Chile.[3] No Brasil, seguindo a “normalidade” da democracia burguesa, Lula conseguiu novamente se reeleger, em 2022. Um contraponto foi o governo de Boric, cuja eleição resultou da institucionalização da força social desencadeada pelo estallido social de 2019, responsável por instaurar uma assembleia constituinte e renovar a composição institucional da esquerda. Contudo, o fato do governo Boric não ter durado mais que um mandato é exemplar dos limites objetivos que a crise da política institucional e da democracia impõe ao progressismo. Ao chegar ao governo, Boric não pôde fazer outra coisa que não administrar a crise social. Além disso, a institucionalização da força social contestatória permitiu implementar medidas que nem mesmo o governo de Piñera havia conseguido, como a aprovação da Lei sobre infraestrutura crítica, aprofundado a militarização de territórios indígenas do povo Mapuche.
Seja como for, uma característica comum desses novos governos foi sua moderação e um recuo acachapante nos parlamentos. E, rapidamente, aquilo que aparentemente seria uma “nova onda” se mostrou um fenômeno de fôlego curto. Nesse sentido, não se tratava exatamente de uma nova onda, mas da sobrevida do progressismo em fim de linha. A extrema-direita, logo depois, voltou aos governos executivos desses países ainda mais fortalecida.
Nesse contexto, o terceiro governo de Lula foi muito mais tímido em relação aos seus anteriores. Apesar de algumas poucas demarcações de terras – a menor entre seus três governos – e mesmo com a criação de um Ministério dos Povos Indígenas (MPI), o ataque aos povos indígenas avançaram. Seja por meio de “negociações forçadas”, realizadas pela “comissão de conciliação”, da Lei do Marco Temporal (Lei 14.701/2023), seja por meio da realização de grandes obras de infraestruturas, ligadas ao novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), muita das quais sobre terras indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Do ponto de vista das mudanças climáticas e do colapso ecológico, além de sancmonar a “PL da Devastação”, que desregulamenta os processos de licenciamento ambiental, o governo manteve, objetivamente, uma posição negacionista. Assim, houve uma ampliação da produção e consumo de combustíveis fósseis, dos investimentos no agronegócio (o Plano Safra chegou a mais de 500 bilhões pro agro) e do neoextrativismo, que avança suas fronteiras com apoio da instituição da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), em meio a corrida global às terras raras e aos “minerais estratégicos”. A militarização social e a expansão do encarceramento também se aprofundaram, com a segunda edição do PRONASCI, conhecido como PAC da segurança pública, e da aprovação da PL Antifacção. Neste último ano de seu mandato, Lula ainda propôs um plano para transformar 138 presídios estaduais em presídios de segurança máxima, se aproximando de políticas de segurança como a de Nayib Bukele (El Salvador), que tem apostado no recrudescimento das prisões, construindo um mega-presídio de segurança máxima, para combater a atuação das facções.[4] Em relação aos direitos da população trans, houve a manutenção do “RG Transfóbico”, a resolução do Conselho Federal de Medicina que restringe o acesso à saúde trans, cuja vigência foi reestabelecida pelo STF, e o engavetamento do Pop Trans (Programa de Atenção Especializada à Saúde da População Trans).
Não é de surpreender que, a partir da reposição e reforço contínuo dessas bases sociais da catástrofe, a extrema-direita continue ganhando cada vez mais terreno social, ao mesmo tempo que se serve de canalização para o ressentimento social. O fato é que a política institucional mostra cada vez mais seus limites estruturais e objetivos para barrar o avanço do neofascismo, expondo uma crise profunda da esquerda que ainda continua a apostar nas capacidades, supostamente inesgotáveis, de “reinvenção” da política institucional.
A luta além do voto
Do ponto de vista das lutas sociais, os governos progressistas, em particular os governos Lula e Dilma, resultaram num processo social de pacificação e de desmobilização. Essa foi uma condição para garantir a governabilidade do pacto social representado por seus governos. Quando esse pacto social deu seus primeiros sinais de implosão em 2013, a resposta do governo foi a brutalidade da repressão policial pacificadora, em especial sobre suas forças populares ingovernáveis e com tendências antiautoritárias. Esse esforço de pacificação continuou mesmo após o golpe de 2016 e a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Enquanto em diversos países da América Latina, sob o contexto da pandemia da COVID-19, ocorreriam protestos contra governos de extrema-direita, o PT e parcela da esquerda institucional decidiram por não radicalizar a luta contra o governo Bolsonaro. Mesmo se tratando de um governo genocida, responsável pela morte de mais de 700 mil pessoas, a estratégia eleitoral da derrota democrática do fascismo nas urnas se impôs.
Após reeleito pela terceira vez em 2022, Lula subiu, em 1º de Janeiro, a rampa do Palácio do Planalto, ao lado de representantes de grupos sociais minoritários. A cena apresentava um governo que se propunha “pacificar”, “reunificar” e “reconstruir” o Brasil e a democracia após 4 anos de governo Bolsonaro. Como “reconstruir” significa repor as condições da própria destruição, a promessa logo se desfez - “feito açúcar na chuva”, nas palavras de Silvia Adoue.[5] Desse modo, a tentativa de golpe, no dia 08 janeiro, havia sido apenas o prenúncio das solúveis bases dessa tentativa de reestabelecer o pacto social implodido.
Contudo, a rapidez com a qual as ilusões do progressismo se dissolviam foram inversamente proporcional ao custo que elas cobraram dos movimentos e das lutas sociais, convocados à participar da “reconstrução” de algo que já não podia mais, contudo, ser reconstruído.[6] A manutenção precária da governabilidade do Lula 3, em larga medida sustentada pela mobilização da ameaça neofascista, significou uma desmobilização e perda de autonomia ainda maior das lutas sociais e o adiamento, numa espera sem fim, das demandas dos movimentos sociais pelas representações institucionais.
Entretanto, ultrapassar os limites da política institucional, e seu sacrifício em nome da governabilidade, é uma tarefa cada vez mais urgente. É comum que, diante das críticas aos limites das políticas institucionais, seja apresentado o argumento em favor da coexistência de dois tipos de estratégias de luta: as parlamentares e extra-parlamentares; a política eleitoral e a política para além do voto. Contudo, o problema é colocado de maneira abstrata, desvinculado de suas condições concretas e reduzido a um problema de “escolha” e “vontade política”, sem atentar para os processo objetivo de crise da democracia e do Estado.
Por um lado, ao mesmo tempo que as medidas desesperadas para contenção institucional do avanço da extrema-direita exigem cada vez mais força social, a construção dessa força social tem sido paralisada como pré-requisito da administração progressista da crise. Ademais, quando essa força social é criada e se manifesta, como ocorreu no Chile, em 2019, ela se mostra incapaz, entretanto, de conduzir qualquer transformação substancial no plano da própria política institucional. Por outro lado, a eficácia da institucionalidade se mostra cada vez mais escassa: a extrema-direita continua avançando, enquanto os mecanismos de inclusão criados são cada vez mais retirados. Esse dilema expressa a crise fundamental, e irreparável, da democracia e da estatalidade, que não pode ser resolvida meramente com uma “boa vontade” política, pela “tomada de consciência de classe”, de um programa correto e criação de novas lideranças institucionais, como quer ainda nos fazer crer certa esquerda tradicional residual. Por mais duro que isso possa soar, esse é um problema incontornável com o qual temos que lidar.
Há, assim, um certo limitar da luta emancipatória que requer uma transposição radical em relação aos limites da política institucional voltada para a construção de governos. Embora, em relação a isso, não haja receita e nem repostas prontas, embora hajam experiências construídas desde baixo nas quais podemos nos inspirar.
Nesse contexto, a defesa da “luta para além das urnas” não pode ser reduzida a um slogan autocongratulatório, segundo o qual, de toda maneira, “seguiremos resistindo”. Ela requer construir formas de luta que sirvam de fato como alternativas diante do esgotamento do progressismo e da política institucional, dando consistência aos processos de transformação social autônomos em relação ao Estado e ao mercado.
Há diversas experiências de luta contemporâneas, em diversas regiões do mundo, que, apesar das contradições, têm mostrado, aqui e agora, a possibilidade de ações nesse sentido. No Brasil, são sobretudo parcelas do movimento indígena que têm desempenhado o papel de retomada das ações diretas no enfrentamento da catástrofe em curso. A ocupação da Cargill, a 4ª maior empresa privada do mundo, por 14 povos do baixo Tapajós contra a transformação do rio numa infraestrutura do Capital Global, em 23 de janeiro de 2026. A ocupação pelos povos indígenas deu mostras de como a autonomia dos movimentos sociais frente aos governos de ocasião são fundamentais para que as lutas coletivas consigam barrar os processos destrutivos de mercantilização de tudo e, ao mesmo tempo, avançar em suas conquistas.[7] A construção da Teia dos Povos e as retomadas autônomas de terras indígenas, como a Terra Indígena Tenondé Porã, têm também mostrado caminhos possíveis para retomadas da autonomia dos povos e das lutas sociais na construção de formas de auto-organização social.[8] A partir das ruínas produzidas pelas condições de crise fundamental do mundo como nos é dado a conhecer, as lutas sociais atuais só terão perspectiva se partirem de outras premissas, se voltando contra a sociedade da mercadoria e suas instituições políticas, ao invés de buscar se promover como suas guardiãs, por meio da expulsão das forças emancipatórias da revolta social.[9]
[1] https://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/7303-ciclo-progressista-chegou-ao-fim-e-esta-em-crescimento-uma-nova-direita
[3]https://ihu.unisinos.br/espiritualidade/78-noticias/620367-a-nova-onda-progressista-entre-a-moderacao-e-uma-direita-intolerante-artigo-de-raul-zibechi
[4]https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/06/governo-lula-estuda-transformar-138-presidios-em-unidades-de-seguranca-maxima.shtml

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